Existe um "cartel" na Premier League?

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A Premier League é atualmente o campeonato de futebol profissional que tem maior fluxo financeiro no mundo e isso não é segredo para ninguém. Após a assinatura do contrato de direitos de transmissão referentes as temporadas 2016/2017, 2017/2018 e 2018/2019, a liga passou a ser ainda mais estrelada; agora, clubes que lutam na parte de baixo da tabela tem potencial financeiro para grandes empreitadas no mercado da bola.

Pegarei como exemplo a trágica contratação de Emiliano Sala feita pelo Cardiff City junto ao FC Nantes, da França. O argentino estava entre os goleadores do campeonato e foi comprado pelo time galês com valores girando em torno de 72,2 milhões de reais. O Cardiff amarga a 18° posição da Premier League.

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Sala após sua transação ter sido concretizada para o clube galês.

Mesmo com valores já altíssimos, a Premier League subiu ainda mais o valor destes contratos para as próximas três temporadas, que compreendem 2019/2020, 2020/2021 e 2021/2022. Vamos dar uma passada pelos números:

A Sky Sports mais uma vez adquiriu os principais pacotes, quatro dos sete disponíveis para ser exato, que possibilitarão a emissora transmitir todos os jogos de sexta-feira, sábado (às 17h30 a 19h45*) e domingo (às 14h e 16h30*), que totalizarão 128 jogos transmitidos por temporada com um custo total de 3,75 bilhões de libras, o que daria aproximadamente 18,05 bilhões de reais; a BT Sports também manteve os direitos televisivos e pagará 975 milhões de libras, cerca de 4,69 bilhões de reais por um dos sete pacotes disponíveis, que lhe permitirá transmitir 52 datas dos sábados às 12h30*.

Houve uma disputa pela aquisição de dois pacotes contendo 20 jogos cada entre plataformas de streaming como Amazon, Facebook, Netflix e Twitter, disputa essa vencida pela gigante americana Amazon, que transmitirá exclusivamente através do seu serviço, o Amazon Prime Video, 20 jogos por temporada. Os valores envolvendo a Amazon não foram divulgados.

* Horário local de Londres

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A evolução dos montates de direitos de transmissão da English Premier League.

A distribuição de toda essa grana é feita da seguinte maneira:

a. Direitos de transmissão domésticos adquiridos pela Sky Sports, BT Sports e Amazon
  • 50% é dividido em igualdade entre os vinte clubes.
  • 25% divididos de acordo com o número de jogos televisionados do clube.
  • 25% divididos de acordo com a colocação final na tabela da Premier League.

b. A receita de patrocinadores e anunciantes da Premier League é dividida em igualdade entre os 20 clubes.

c. Direitos de transmissão comercializados para fora do Reino Unido que totalizam cerca de 1bi de libras por ano. E é aqui que começa todo o problema e motivo desse texto.

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O big six não está contente com a atual divisão do dinheiro "além-mar".

Para ilustrar de uma forma facilmente compreensível, chamaremos a receita dos direitos de transmissão que vem de fora do Reino Unido pelo nome "além-mar". A receita além-mar hoje causa discórdia entre o big six, ou seja, os seis grandes clubes da Inglaterra, sendo eles Chelsea, Arsenal, Manchester United, Manchester City, Liverpool e Tottenham Hotspur. 

O big six acredita que o dinheiro além-mar existe pelo interesse estrangeiro de acompanhar as supracitadas, que de fato são as equipes mais badaladas da liga. Mas dividir o dinheiro além-mar de forma democrática e igualitária é algo ruim para o campeonato? Não. E o big six pensava dessa forma até que recentemente os valores atingiram cifras bilionárias e algo mais acontecesse; na década de 1990, a receita gerada pela venda dos direitos de transmissão para fora do Reino Unido era baixa, nada que causasse litígio ou conflito entre o big six e os demais clubes da liga. A partir da virada do século, houve um crescente interesse na liga por diversos motivos, sejam times já mundialmente conhecidos ou novos bilionários no páreo trazendo grandes jogadres para a liga, mas ainda sim os valores altos da receita além-mar não foram os causadores dessa revolta,  o dinheiro entrava e era distribuído de forma que todos recebessem o mesmo valor, até que aconteceu algo... algo chamado Leicester City.

Os foxes comemorando o título da Premier League na temporada 2015/2016

Sim, você não leu errado, o grande "responsável" por toda essa disputa travada nos batidores da liga mais vista no mundo foi causada pelo pequeno e heróico Leicester City. Em toda era Premier League do futebol inglês, apenas um clube fora do big six havia vencido o campeonato inglês em sua versão moderna, o Blackburn Rovers da lenda Alan Shearer, feito alcançado na temporada de 1994/1995. As coisas na elite do futebol inglês estavam bem definidas, os grandes não precisavam se preocupar com uma insurgência, já que para cada libra que os pequenos recebiam, eles praticamente recebiam o dobro.

 Na temporada 2015/2016, o Leicester sagrou-se campeão investindo cerca de 36,6 milhões de libras, enquanto o Manchester City por exemplo, gastou quase seis vezes mais, com gastos de 215 milhões. Vendo sua dominância correndo um risco que jamais fora imaginado antes, o big six logo tratou de formular uma nova forma de distribuição do dinheiro além-mar para que os principais beneficiados diretos fossem, claro, eles.

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A tabela acima representa o resultado de uma simulação baseada no novo modelo de distribuição do dinheiro além-mar proposto pelo big six. De acordo com fontes internas da própria comissão da Premier League, esse modelo consistia na seguinte divisão:
  • 65% da receita gerada pelo dinheiro além-mar seria dividida igualmente entre os vinte clubes.
  • 35% da receita além-mar seria distribuida de acordo com a colocação na tabela da Premier League.
A proposta do novo modelo seria votada em outubro de 2017, mas foi vetada pois o Chefe da comissão que cuida da administração da Premier League, Richard Scudamore, viu que a proposta não teria os 14 votos necessários para sem implementada. Caso fosse, o resultado seria uma mudança positiva para 12 clubes e negativa para outros 8 tendo em conta as regras em vigor, mas caso fossemos nos aprofundar nesse sujeito em questão (o ganho de 12 e perda de 8), nós iriamos passar muito tempo aqui e chegariamos até a Football League One, terceira divisão inglesa.

Mesmo que essa medida não tenha sido posta pra frente, tudo isso não passou em branco; o big six diversas vezes ameaçou a criação de uma superliga européia com outros clubes, abandonariam a UEFA e até mesmo a Premier League. Por mais fantasioso que pareça, essa idéia não é absurda e já contou com apoiadores expressivos, sendo um deles o presidente do Real Madrid, Florentino Pérez. O que de fato aconteceu foi que no início desse ano Richard Scudamore foi sacado de seu cargo e Susanna Dinnage assumiu. Lembrando que os clubes apontam o chefe da comissão e não descarte a hipótese desse veto ter sido muito influente na decisão.

Susanna Dinnage
Susanna Dinnage, a nova Chefe-Executiva da Premier League assumiu em 2019 sua função, previamente definida, em novembro de 2018.

O que é certo, é que qualquer AUMENTO na receita do dinheiro além-mar no novo contrato (valores do contrato com a Amazon não divulgados) será dividído no final da temporada por critérios meritocráticos, ou seja, por posição.

Para impedir que clubes da parte de cima da tabela tenham faturamento muito superior aos demais que figuram no meio e parte de baixo da classificação, o clube vencedor da Premier League não pode ter faturamento superior a 180% em relação aos últimos colocados, nas regras atuais, ainda em vigor na atual temporada de 2018/2019, esse limite é de 161%.

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Os vermelhos de Liverpool são um dos postulantes ao título da temporada 18/19.

Para finalizar e responder a pergunta feita no início do texto: sim, existe um cartel na Premier League e ele se chama big six. Você, agora que leu tudo e tem as informações necessárias para formar sua opinião, pode decidir se isso é algo bom, ruim ou "do jogo". 

De qualquer forma, a Premier League continua a nos encantar com grandes jogos a cada rodada, sejam eles incluindo o big six ou não, o que rebate a tese previamente defendida pelos grandões da Inglaterra.


Dados retirados dos seguintes: 
http://priceoffootball.com/tag/broadcast-income/
https://www.theguardian.com/media/2018/jun/07/amazon-breaks-premier-league-hold-of-sky-and-bt-with-streaming-deal
https://www.infomoney.com.br/negocios/noticia/4938987/bilionario-tailandes-investe-leicester-city-comeca-ver-retorno

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