Lazio e Livorno - O conflito de ideologias dentro de campo

Em uma Itália sempre efervescente politicamente, futebol e política se discutem sim. Principalmente quando estão relacionados, e os principais exemplos disso, são Lazio e Livorno.

Fundada em 1900 na capital italiana, localizada na península do Lácio, o clube leva as cores azul e branca inspiradas na bandeira da Grécia e tem na águia seu mascote por ser considerado o animal sagrado de deus Júpiter, além de ser o animal oficial do Império Romano. Apesar de não ser o clube preferido de Benito Mussolini (o ditador era adepto do Bologna FC), o clube historicamente, principalmente por parte de sua torcida "Irridutibili".



O pensamento xenofóbico foi crescendo principalmente quando se tornou mais comum a chegada de africanos e brasileiros dentro do time azul e branco da capital. Recentemente, os torcedores foram à Milão, para acompanhar o confronto contra o time Rossonero da capital da moda, e antes da partida expuseram faixas de apoio à Benito nas praças de Milão, além de entoarem cantos racistas e fascistas, direcionados principalmente para Kessie e Bakayoko, jogadores do Milan.

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Historicamente, é normal ver faixas de cunho fascista na torcida, como "Multidão de negros", "Times de Judeus", em confrontos contra a rival Roma. Em uma ocasião, iria ser realizada uma edição da Copa Shalom (paz em hebraico), na capital italiana, o que fez com que os ultras laziales boicotassem a competição por completo.

Atentados também eram comuns por parte dos torcedores, que já posicionaram bombas em memoriais da Segunda Guerra. E se engana quem pensa que somente adversários sofrem esse tipo de perseguição. Quando o holandês Aron Winter, jogador negro holandês jogou no clube, era comum ouvir os gritos de "preto judeu" vindo das arquibancadas.

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Com a crescente onda direitista na Itália, o que se vê é um aumento desses casos, além dos torcedores não temerem mais as punições sofridas, o cenário de impunidade ainda impera na Itália, e jogadores como Koulibaly, Moise Kean e outros, sofrerem cânticos racistas em toda a bota, sem qualquer tipo de ação tomada pela FIGC.



O maior expoente deste pensamento por parte da Lazio, foi Di Canio. O ex-jogador comemorou por 2 vezes com o gesto fascista, impondo a mão direita ao alto. Inclusive, um deles foi contra o próprio Livorno. O jogador ainda possui uma tatuagem do Duce no braço, além de elogiar Mussolini em sua biografia. O italiano ainda disse, em uma das ocasiões que realizou esta comemoração, afirmando que "se estivéssemos nas mãos dos judeus, estaríamos perdidos".



Do outro lado da ideologia, posicionado mais a esquerda, está o Livorno. Fundado em 1915 na cidade homônima ao clube, desde seu início, possui um pensamento mais a esquerda do espectro, sendo comum verificar bandeiras relacionadas à Che Guevara, o martelo e a foice, ou outros símbolos conhecidos do socialismo.



Localizada na Toscana, a cidade foi um reduto de resistência ao regime fascista nos anos 20, 30 e 40, e atualmente, ainda concentra grande parte da sua população como apoiadores do pensamento esquerdista.

Até hoje, nos estádios, são entoados cantos operários famosos, como "Bandiera Rossa" são tradição no Stadio Armando Picchi. Outro canto famoso, entoado pela B. A. L. (Brigate Autonome Livornesi), é o "Berlusconi Pezzo di Merda" (Berlusconi, seu merda). Ídolo da torcida, Lucarelli, assim como Di Canio, também era torcedor. Ex-integrante da B.A.L, o jogador fez um de seus gols pela Azzurra, na época na categoria sub-21, e na comemoração, exibiu uma camisa de Che Guevara, que fez com que sofresse retaliação da Federação, e nunca mais fosse convocado pela seleção.



O jogador, apesar de nunca ter sido brilhante, sintetiza bem o pensamento dos torcedores do time vermelho da Toscana. Apoiador de greves, o jogador abriu mão de salários e prestígios para jogar durante mais tempo em seu clube de coração, além de participar ativamente do cenário político italiano. Por suas opiniões fortes, o jogador só voltou a ser convocado em 2005. O Livorno nunca foi um clube vitorioso, mas seus torcedores até hoje, são a resistência, e mesmo disputando a terceira divisão, não deixa de protestar na arquibancada, assim como os ultras da Lazio, sobre o que acreditam.



O futebol é fascinante, e apesar de não terem muito destaque futebolisticamente, esses dois clubes carregam uma história enorme, e nos fazem entender que futebol é uma importante ferramenta política, que funciona até os dias atuais, seja qual for o lado em que se acredita.

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